quarta-feira, 2 de abril de 2014

Referências para a Ocupação do Espaço Sem Bola


1. Estruturando o Espaço de Jogo

Considerada por Júlio Garganta (1997) uma competência essencial e inerente aos Jogos Desportivos Coletivos (JDC), a estruturação do espaço de jogo emerge como uma componente fundamental no processo de construção de uma equipe desde o nível individual, manifestada na compreensão e ocupação de espaços mais interessantes por parte do atleta a cada situação problema que o jogo apresenta e na gestão coletiva do espaço de jogo, onde a equipe estrutura-se em campo com o intuito de obter vantagem espacial e numérica pelo maior tempo possível nas mais variadas zonas do campo.
A ocupação do espaço não acontece de forma aleatória, ela tem (ou pelo menos deve ter) um significado para o jogador e para a equipe que se auto-organiza o tempo todo em função dos objetivos do jogo. A Lógica do Jogo de Futebol (Leitão, 2004) é comum a todos os jogos e imutável, os caminhos para cumpri-la é que podem exigir meios diferentes e, o que apresenta uma enorme variação, é a forma como cada equipe se organiza em nível estratégico para vencer partidas e quais as referências que dão sustentação a essa organização estratégica.
Portanto, a criação de referências que norteará as decisões dos jogadores para que reajam em função de algo que seja comum a todos, possibilitando o jogo em equipe de forma concreta. Essa criação (seria construção?) de referências se dá a partir das vivências dirigidas que o treinador proporciona à equipe através dos treinamentos e de um encadeamento lógico entre os conteúdos que farão parte do dia-a-dia da equipe.    

2. O Jogo Coletivo através das Referências

Segundo Amieiro (2005), a organização defensiva só conseguirá ser verdadeiramente coletiva se as ações tático - técnicas realizadas por cada um dos onze jogadores forem perspectivadas em função de uma idéia comum, respeitando um referencial coletivo, em que as tarefas individuais dos jogadores se relacionam e regulam entre si. O autor ainda afirma que apenas assim o “todo” (a equipe que se defende) conseguirá ser maior que a soma das partes que o constituem (comportamentos tático-técnicos de cada atleta).
Quanto o autor fala sobre “idéia comum” ou “referencial coletivo” é preciso entender que não está se referindo a automatismos fechados, ou algo já estabelecido de forma estanque, mas a princípios que norteiam a ação coletiva da equipe e por conseqüência as ações individuais dos atletas nela inseridos. Pode-se constatar isso no trecho seguinte da sua frase em que se refere às interações entre jogadores (quando diz “relacionam”) e ao processo de feedback (quando diz “regulam”) que ocorre permanentemente durante as ações coletivas e individuais dos jogadores.
Portanto faz-se necessário construir e definir princípios que balizem os comportamentos coletivos (princípios de jogo), visto que o jogo pelo seu caráter imprevisível não permite ações planejadas em sua plenitude, pois vai sendo construído conforme as respostas que seus jogadores vão oferecendo pontualmente naquelas situações. Respostas essas que surgem da interação dos mesmos com sua equipe, com o adversário, com a posição da bola e de um número muito alto de outras variáveis que estão nele inseridos.

3. O Processo de Construção das Referências

A simples informação não altera comportamentos e estes demoram muito tempo para serem alterados (FRADE, 2004). Cabe ao treinador direcionar esses comportamentos para o modelo de jogo que pretende adotar, através de exercícios com complexidade crescente, sempre atuando na zona proximal de conhecimento do atleta com um objetivo final muito definido. O quão elaborado será o modelo de jogo depende da qualidade com que esse processo será aplicado e do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo.
A opção por este ou aquele conjunto de referências dependerá de fatores como o Modelo de Jogo idealizado pelo treinador, o nível em que se encontra o conhecimento da equipe sobre o jogo, a integração entre estes dois fatores anteriormente citados, entre outros.
O objetivo é que a equipe apresente respostas coletivas para a maior quantidade possível de situações que estejam presentes nos quatro momentos do jogo: com a bola, sem a bola, transição defesa - ataque e transição ataque - defesa. Nessa proposta uma equipe pode ter a bola, mas, por estar com vantagem no placar, não quer dar profundidade ao jogo e quer defender-se com a posse. Suas movimentações são bem diferentes de quando ela precisa marcar gol. Os princípios de jogo estão ligados aos hábitos da equipe, que são resultado da interação dos hábitos individuais dos jogadores, portanto aí deve estar focada a intervenção do processo de treino. Para Frade (2002), o hábito é um saber-fazer que se adquire na ação, portando vivenciar os devidos princípios de uma forma hierarquizada e sistematizada é fundamental para que o objetivo final, ou seja, a implantação do modelo de jogo idealizado pelo treinador baseado no contexto em que se encontra, materialize-se em campo de forma condizente com a proposta inicial.    

4. Algumas Referências do Espaço 

Figura 1 – Plataforma Tática 1-4-4-2 Zonal (vermelha)
  
Pode-se observar (figura 1) que a equipe que está sem bola (vermelha) respeita algumas referências para a ocupação do espaço quando sem bola. Algumas delas são:
- a posição da bola: independente da posição ocupada pela equipe azul quando em posse da bola, a equipe vermelha irá se comportar em função de seus próprios jogadores;
- lado fraco: a faixa contrária à bola fica desocupada momentaneamente para que mais jogadores ocupem uma área entre a bola e o gol (flutuação e compactação como princípios estruturais sendo realizadas nesse caso);
- quadrantes: a ocupação dos quadrantes se dá de forma equilibrada, porém prioritária (espaços de maior valor) permitindo criar superioridade numérica se necessário;
- linhas de marcação: a orientação para a estruturação da marcação por zona é a formação de linhas que permitem maior equilíbrio horizontal.

5. Integrando as Referências

É importante frisar que as referências para a estruturação do espaço sem bola devem estar relacionadas com as referências para a estruturação do espaço com bola e com todas as outras referências (operacionais, por exemplo) de forma que interajam potencializando o efeito uma da outra e nunca atuando de maneira concorrente. Outro detalhe que vale a pena ressaltar é que essas referências citadas acima estão baseadas numa marcação por zona e, caso seja feita a opção por uma marcação individual ou mista deve-se buscar outras referências. Marcar em função da posição da bola (zona) para alguns treinadores é considerado desvantajoso pela grande velocidade que a mesma pode atingir, porém, ao optar pela marcação individual aumenta-se o número de referências (onze), sendo que essas (os jogadores) buscam a desestruturação da equipe que os marca.
Caso algum(ns) jogador(es) não estejam com os princípios daquele momento assimilados, pode(m) apresentar respostas incongruentes com os objetivos momentâneos da equipe, realizando movimentações para regiões em que a pressão do adversário é mais intensa, aumentando os riscos de perder a bola e não colaborando com a meta coletiva estabelecida para aquela pontual situação, a manutenção da posse de bola simplesmente. E que fique bem claro com esse parágrafo que “estar defendendo” ou “estar atacando” independe de ter ou não a bola, pelo caráter indivisível que o jogo apresenta ao contemplar os quatro momentos anteriormente citados que se manifestam intimamente relacionados.
Independente das escolhas do treinador por esta ou aquela forma de jogar, só com referências bem definidas que o caráter coletivo da equipe será manifestado.

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Frade, V. (2004) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Leitão, R. A. A. (2004) Futebol: análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. UNICAMP, Campinas.

Mourinho, J. (2003) Entrevista ao programa <2 parte=""> da SporTV. 14 de maio de 2003.

terça-feira, 11 de março de 2014

Do Modelo de Jogo ao Jogo: uma proposta conceitual


1. O que é Modelo de Jogo ?

O conceito de modelo de jogo (MJ) aparece nesse momento muito pertinente nas literaturas buscadas pelos profissionais que estão sempre à procura de evolução sobre questões ligadas aos esportes coletivos e almejam tornar cada vez mais consistente sua filosofia de trabalho. Enquanto no Brasil pouquíssimo material foi produzido sobre o tema, na Europa ele é alvo de discussões há muito tempo, como podemos observar nesse trecho escrito por Teodurescu em 1984, em que o autor considera que “o modelo de jogo é uma referência, construída a partir de outras referências de ordem de rendimento superior, que postulam um conjunto de ações individuais e coletivas dos jogadores e da equipe, integradas com o espírito físico e psíquico característico do jogo”. Na década de 90, o autor Júlio Garganta escreveu bastante sobre o assunto, devido à relação que o mesmo tem com sua proposta metodológica de ensino para os jogos desportivos coletivos. A partir do pressuposto que o processo de ensino / aprendizagem deve pautar-se pela eficácia, isto é, pela capacidade de produzir os efeitos pretendidos, torna-se imprescindível a existência de referenciais que, para além de possibilitarem a definição dos objetivos, orientem a seleção dos meios e métodos mais adequados para alcançá-los (Garganta, 1985). Complementando este conceito, defende que o processo de ensino do Futebol deve reportar-se a um conjunto de princípios ou idéias (modelos), que expressam os aspectos a que se atribui maior importância e que se pretende ver cumpridos.

2. Definições de Modelo de Jogo na Universidade e no Campo

Recentemente, José Mourinho (2006), afirmou que ter um modelo de jogo definido é o mais importante para uma equipe de futebol, e tal modelo é um conjunto de princípios que dão organização a sua equipe por isso deve ter relevância especial desde o primeiro dia de trabalho. O treinador português define MJ como a direção que faz com que os jogadores possam nos quatro momentos do jogo (veremos mais à frente este tema), pensar sob a mesma perspectiva.
Para o treinador Rafa Benitez (2007) o MJ é a finalidade a que se destinam os treinamentos para dar uma identidade de jogo à equipe. Leitão (2009) define MJ como a orientação (norte) que permite a todos os jogadores de uma equipe ter a mesma leitura do jogo, de forma organizada em todos os momentos do jogo.
O treinadores e os autores, em publicações com intervalos maiores ou menores de tempo referem-se ao conceito de MJ com muita proximidade, apesar de utilizam-se de algumas palavras distintas para descrevê-lo, de acordo com o enfoque com que cada um tem sobre o mesmo tema.


3. O Conteúdo do Modelo de Jogo

Segundo Bayer (1986), os princípios de jogo representam a fonte da ação, definem as propriedades invariáveis sobre as quais se realizarão as estruturas fundamentais do desenrolar dos acontecimentos.  Os princípios de jogo aplicados pelo jogador e pela equipe devem manter uma congruência muito grande entre eles e com o Modelo de Jogo pretendido para a equipe. Castelo (1996) afirma que o MJ compreende a evolução dinâmica e criativa do jogo ao longo do seu processo de desenvolvimento. Durante a evolução do jogo, vão se alternando as exigências de resposta a cada situação problema, tornando imprescindível coordenação entre as resposta dos jogadores e suas equipes para que os padrões coletivos comecem a dar identidade ao sistema (equipe).

Figura 1 – Grandes Princípios segundo Vítor Frade (2002)
Sem aprofundar-se na discussão em relação às bolas paradas (se é que podemos assim chamar) se pertencem ou não a um dos quatro primeiros grupos (figura 1), pode-se observar que o Professor Vítor Frade (2002) dividiu toda a estrutura acontecimental do jogo em quatro grandes momentos, como já havia sido citado por José Mourinho. Para o autor, todas as ações do jogo estão contidas em um desses quatro momentos, por ele denominados de Grandes Princípios. O nome Grandes Princípios vem em decorrência de, dentro de cada deles, existirem os respectivos Princípios de Jogo, que contém os seus respectivos Sub-Princípios, onde se encontram os Sub-Princípios dos Sub-Princípios e assim sucessivamente. Todos subjugados ao MJ e respeitando uma hierarquia de acordo com o nível em que se encontra.        

4. O Processo de Construção de um Modelo de Jogo

O modelo de jogo é o núcleo de toda a periodização tática, sem a definição do modelo torna-se descontextualizado o trabalho sob a perspectiva da periodização tática. O foco nesse novo cenário está na forma de jogar que será construída ao longo da temporada, visando uma regularidade competitiva e evolução constante nos comportamentos da dominante tática para que se atinja o “pico do modelo de jogo” como objetivo do processo.

Figura 2 – Do Modelo Idealizado ao Modelo Concreto

A periodização deve englobar a especificidade do MJ adotado em aspectos cognitivos, físicos, táticos, técnicos e psicológicos, além dos princípios e sub-princípios de jogo que serão aplicados pela equipe nas organizações ofensiva, defensiva e nas transições defesa - ataque e ataque-defesa. A modelação (figura 2) é um processo que acontece quando o Modelo Idealizado, e que guia o processo de treinamento, vai se concretizando em comportamentos apresentados de forma individual e coletiva com uma regularidade que permite tornar a equipe um modelo único.
Construir um MJ a partir das metodologias tradicionais soa incoerente, porque de um lado estão as teorias pautadas na complexidade, integração (MJ) e de outro, processos fragmentadores, característica comum aos métodos de treinamento atualmente utilizados em que tática, técnica, preparação física e emocional são trabalhadas de maneira isolada.
 
5. Ter ou não um Modelo de Jogo é uma opção ?

Portanto, modelo de jogo não é somente a tática usada pelo treinador, mas sim um conjunto de ações, pensamentos e princípios seguidos pela equipe. Ao elaborar os treinos, deve-se levar em conta o MJ previamente definido, ou seja, o processo de treinamento deve englobar exercícios que seguem o MJ escolhido pelo treinador. E que fique claro que todas as equipes possuem um MJ, independente do método de treino aplicado e do conhecimento do treinador sobre o tema, o que poderá variar é o quão elaborado (ou não) é o MJ que determinada equipe apresenta no campo. Colocar onze jogadores no campo defensivo e “dar chutões” ou jogar realizando uma zona pressionante são dois MJ com um grau de complexidade bem distinto, desde a forma como se operacionalizar um treinamento para construí-los, passando pela assimilação dos atletas, até sua aplicação no jogo.

O treinador, na fase inicial do trabalho deve definir o modelo de jogo da equipe junto com sua comissão técnica, levando em conta sua idéia de jogo, a característica dos jogadores, os princípios de jogo, a organização funcional e a estrutura do clube. O modelo de jogo deve ter objetivos bem definidos e bem claros para todos, para que cheguem a atingir tais metas. Porém, devem saber que esse modelo de jogo pode sofrer ajustes, para que haja um aperfeiçoamento gradativo.   

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor.

Bayer, C (1986) La enseñanza de los juegos desportivos colectivos. Hispano Europea. Barcelona.

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Oliveira, B. et al (2006) Mourinho: Porquê tantas vitórias?. Editora Gradiva.

Teodurescu, L. (1984) Problemas de Teoria e Metodologia nos Jogos Desportivos. Livros Horizonte.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Jogo Coletivo, a "Des"fragmentação e a "Re"integração do Jogo

1. Jogando como equipe

“... o que de mais forte uma equipa pode ter é jogar como uma equipa.”
(Mourinho, 2003)

Segundo Amieiro (2005), a organização defensiva só conseguirá ser verdadeiramente coletiva se as ações tático - técnicas realizadas por cada um dos onze jogadores forem perspectivadas em função de uma idéia comum, respeitando um referencial coletivo, em que as tarefas individuais dos jogadores se relacionam e regulam entre si. O autor ainda afirma que apenas assim o “todo” (a equipe que se defende) conseguirá ser maior que a soma das partes que o constituem (comportamentos tático-técnicos de cada atleta).
Quanto o autor fala sobre “idéia comum” ou “referencial coletivo” é preciso entender que não está se referindo a automatismos fechados, ou algo já estabelecido de forma estanque, mas a princípios que norteiam a ação coletiva da equipe e por conseqüência as ações individuais dos atletas nela inseridos. Pode-se constatar isso no trecho seguinte da sua frase em que se refere às interações entre jogadores (quando diz “relacionam”) e ao processo de feedback (quando diz “regulam”) que ocorre permanentemente durante as ações coletivas e individuais dos jogadores.
Portanto faz-se necessário construir e definir princípios que balizem os comportamentos coletivos (princípios de jogo), visto que o jogo pelo seu caráter imprevisível não permite ações planejadas em sua plenitude, pois vai sendo construído conforme as respostas que seus jogadores vão oferecendo pontualmente naquelas situações. Respostas essas que surgem da interação dos mesmos com sua equipe, com o adversário, com a posição da bola e de um número muito alto de outras variáveis que estão nele inseridos.

2. Construindo Referenciais (Princípios de Jogo) comuns

A simples informação não altera comportamentos e estes demoram muito tempo para serem alterados (FRADE, 2004). Cabe ao treinador direcionar esses comportamentos para o modelo de jogo que pretende adotar, através de exercícios com complexidade crescente, sempre atuando na zona proximal de conhecimento do atleta com um objetivo final muito definido. O quão elaborado será o modelo de jogo depende da qualidade com que esse processo será aplicado e do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo.
O objetivo é que a equipe apresente respostas coletivas para a maior quantidade possível de situações que estejam presentes nos quatro momentos do jogo: com a bola, sem a bola, transição defesa – ataque e transição ataque-defesa. Nessa proposta uma equipe pode ter a bola, mas, por estar com vantagem no placar, não quer dar profundidade ao jogo e quer defender-se com a posse. Suas movimentações são bem diferentes de quando ela precisa marcar gol. Caso algum(ns) jogador(es) não estejam com os princípios daquele momento assimilados, pode(m) apresentar respostas incongruentes com os objetivos momentâneos da equipe, realizando movimentações para regiões em que a pressão do adversário é mais intensa, aumentando os riscos de perder a bola e não colaborando com a meta coletiva estabelecida para aquela pontual situação, a manutenção da posse de bola simplesmente. E que fique bem claro com esse parágrafo que “estar defendendo” ou “estar atacando” independe de ter ou não a bola, pelo caráter indivisível que o jogo apresenta ao contemplar os quatro momentos anteriormente citados que se manifestam intimamente relacionados.
Os princípios de jogo estão ligados aos hábitos da equipe, que são resultado da interação dos hábitos individuais dos jogadores, portanto aí deve estar focada a intervenção do processo de treino. Para Frade (2002), o hábito é um saber-fazer que se adquire na ação, portando vivenciar os devidos princípios de uma forma hierarquizada e sistematizada é fundamental para que o objetivo final, ou seja, a implantação do modelo de jogo idealizado pelo treinador baseado no contexto em que se encontra, materialize-se em campo de forma condizente com a proposta inicial.    

3. Ataque e defesa: onde um começa e o outro termina?

É quase que fato consumado no futebol entender o processo ofensivo (ataque) o momento em que a própria equipe tem a posse da bola e o processo defensivo (defesa) o momento em que a posse de bola é do adversário.
E nas transições, quem está atacando e quem está defendendo?
Simples, na transição defesa – ataque (ofensiva) eu estou atacando e na transição ataque-defesa (defensiva) meu adversário ataca.
Ainda bem que, para os profissionais do futebol, os jogos coletivos são muito mais complexos que essa singela interpretação. Senão qualquer torcedor entenderia o jogo tão bem quanto um treinador de equipe de alto nível.
Os processos ofensivos e defensivos estão tão intrinsecamente conectados que seria impensável analisá-los e treiná-los de forma isolada.
Imagine a seguinte situação:
Sua equipe está vencendo a partida e adota como estratégia manter a posse de bola (prioritariamente no campo de defesa pela ocupação espacial do adversário) com o objetivo de “apenas” esperar o tempo terminar. A equipe adversária realiza uma marcação pressão para recuperar a bola rapidamente e tentar realizar uma finalização a gol.
Pergunta: Quem está defendendo? E atacando?
Essa situação muito comum nos jogos que presenciamos mostra que a posse de bola por si só não determina a atitude de uma equipe. E a ausência dele também não.
E respondendo a pergunta do título desse artigo, podemos entender que os processos ofensivos e defensivos acontecem simultânea e constantemente dentro do jogo e isso deve ser levado em conta na elaboração de um treinamento tático.  

4. Uma visão limitada da marcação

É muito comum ouvirmos os treinadores falarem em sistemas de marcação, ou como a equipe deve anular o oponente, e que em determinada partida ele optará por tal sistema de jogo por considerá-lo mais eficiente para marcar adversário e garantir um resultado. E a questão que aparece nesse momento é se todos eles estão perspectivando a marcação com os mesmos princípios. Muito normal um treinador de terceira divisão vê-la de forma diferente de um de primeira divisão, é uma questão de nível de elaboração quanto à proposta de jogo. Também devem apresentar diferenças um treinador que adota marcação mista e um outro que prefira marcar por zona, já que ambas possuem na sua essência diferentes referenciais. Alguns autores escreveram sobre o tema.
Lópes Ramos (1995) diz que a marcação é uma ação tática dos jogadores da equipe que está sem a bola realizam sobre seus adversários, evitando o contato desses com a bola ou de o fazer nas piores condições possíveis. É realizada sobre todos os adversários com ações diferentes sobre o portador da bola, sempre com o marcador entre o adversário e a própria baliza, orientado em relação ao seu par. A marcação deve ser tanto mais forte quanto mais próxima ao gol defendido. Pacheco (2001) define marcação como uma ação tática em que os defensores aproximam dos atacantes, colocando-se entre eles, a bola e o gol defendido, impedindo a progressão, o passe e a finalização, buscando a recuperação da bola.
Reparem que essa duas definições para marcação colocam o adversário como referência primária para a marcação. O objetivo principal (e provavelmente único) é evitar qualquer ação do mesmo. E mostra-se como único porque não apresenta nenhuma relação com a forma de jogar da equipe que está marcando, que apenas quer impedir o jogo do outro time. Não apresenta porque todas as ações citadas pelos referidos autores são individuais. O time marcador corre atrás do time que joga, deixando de impor sua própria forma de jogar, desprezando uma ocupação espacial racional. Considera a marcação com um momento estanque, dissociado dos quatro grandes momentos do jogo (sem bola, transição defesa-ataque, com bola, transição ataque-defesa).
Quando “Lópes Ramos” escreve “a marcação deve ser tanto mais forte quanto mais próxima ao gol defendido” essa proposta torna-se ainda mais limitada, pois desconsidera a possibilidade de se realizar pressão sobre o adversário em zonas mais adiantadas. Em nenhum momento o sistema de coberturas é colocado como uma possibilidade, afinal, os marcadores nunca saberão onde estarão seus companheiros de equipe que nesse momento estão na dependência do “seu par”.
Sob essa perspectiva, o jogo passa a ser visto de uma forma fragmentada onde suas partes não se relacionam nem se interagem. E, ao assistir uma partida de futebol em qualquer nível podemos constatar que os quatro momentos citados anteriormente ocorrem o tempo todo, em sucessão e com conseqüências um do outro. O treino deve considerar essa interação, porque querendo ou não o treinador, o jogo será construído dessa forma.
  
5. O que é, afinal, defender (jogar) por zona?

Vemos claramente no futebol mundial atual que as grandes equipes em sua maioria jogam marcando por zona seus adversários. Equipes com grandes jogadores que descobriram nessa forma de jogar um caminho para potencializar seus talentos e fazer do jogo coletivo sua identidade. Se esse fato realmente acontece, também é verdade que ainda existem treinadores que a ignoram e justificam-se apontando as limitações desse tipo de marcação.
Bauer (1994) caracterizou a “defesa por zona” assim: 1) a cada jogador é entregue um determinado espaço (zona), pelo qual será responsável durante toda a defesa, 2) quando a equipe perde a bola, cada jogador deve deslocar-se para trás, para a sua zona, 3) na sua zona, o jogador deve marcar diretamente qualquer adversário que nela entre, com ou sem bola, 4) se o adversário muda para outra zona, passará automaticamente a ser da responsabilidade de outro defesa, 5) todos os jogadores da equipe devem deslocar-se em direção à bola e, 6) o portador da bola deverá ser atacado por dois ou mais jogadores por vez.
Essa definição do referido autor, apesar de considerar algumas características da defesa por zona, aproxima-se mais de uma marcação mista, onde cada jogador marca o adversário que estiver na sua zona. E também apresenta algumas incoerências, pois, como vou garantir que a marcação será duplicada sobre o portador da bola se meus jogadores tem como referência a movimentação adversária? Tudo bem, será dentro de sua zona de atuação, mas isso já será suficiente para impedir uma eficiência do sistema de coberturas.
E por falar em referência, aí reside uma brutal distância entre marcar por zona e as outras formas de marcação que visam o encaixe no adversário. A grande referência da defesa por zona são os espaços e fechar como equipe os espaços mais valiosos. Mas onde são os espaços mais valiosos? Aqueles próximos ao local em que a bola se encontra naquele exato momento e que varia constantemente, tornando a gestão coletiva do espaço e do tempo fundamentais. Se a gestão é coletiva, minha equipe deve atuar como um bloco coeso, fechando linhas de passe em progressão, que flutua dependente da circulação de bola do adversário, gerando pressão espaço-temporal no portador da bola da equipe adversária através da ocupação racional dos espaços. Assim obteremos superioridade numérica, pois vejam, que em nenhum momento a movimentação do adversário interferiu no sistema de coberturas que se sucedem a cada variação de ação tática-técnica de ambas equipes.

Melhor que “defender por zona” é falarmos em “jogar por zona” porque expressa com mais clareza o real significado dos objetivos implícitos nessa filosofia. Quando jogo marcando dessa forma, a recuperação da bola deve ocorrer de forma coletiva com total relação com o momento ofensivo. Aliás, dividir o momento “sem bola” do momento “com bola” e ignorar suas respectivas transições é um perigo tão grande como não considerarmos o “jogo por zona” das equipes bem sucedidas do futebol mundial. Ou, talvez, os perigos não sejam maiores um do que o outro, mas o mesmo.   

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

BAUER, G. (1994). Fútbol. Entrenamiento de la técnica, la táctica y la condición física. Editorial Hispano Européia. Barcelona.       

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Frade, V. (2004) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

LÓPEZ RAMOS, A. (1995). El marcaje: Fundamentos y trabajo práctico. Fútbol: Cadernos Técnicos, Nº 1, abril de 1995. 3-14.

Mourinho, J. (2003) Entrevista ao programa <2 parte=""> da SporTV. 14 de maio de 2003.

PACHECO, R. (2001). O Ensino do Futebol de 7 – Um jogo de iniciação ao futebol de 11. Edição do autor.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os Padrões das Grandes Seleções na Copa das Confederações 2013: a Passe, a Finalização e o Gol (Parte 3)

As duas ações técnicas fundamentais, o passe e a finalização, suas relações e o aproveitamento em gols como resultante

“O futebol não é um esporte de posse de bola.
É um jogo de gestão de constantes perdas de bola”
(Anderson e Sally in Os Números do Jogo, 2013, p. 141)

Neste terceiro artigo sobre a Copa das Confederações, o objetivo é relacionar duas ações técnicas fundamentais do jogo, como o passe (Parte 1) e a finalização (Parte 2) com a capacidade de atingir o objetivo principal, marcar o gol. Novamente, os números nos fornecem informações sobre alguns padrões, índice de produtividade e preferências das quatro seleções finalistas.
Figura 1 – Relação entre Passes (Total) e Finalizações

A Itália foi a seleção que mais precisou passar a bola para gerar uma finalização (1 finalização a cada 42,5 passes). As outras três seleções mantiveram uma relação entre o total de passes e o total de finalizações muito próximo. Quando o total de passes foi relativizado com as finalizações certas, Brasil e Uruguai tiveram índices muito próximos, a relação da seleção italiana se manteve como a mais alta e a Espanha foi a seleção que mais elevou sua relação (precisou de 78,2 passes para finalizar em gol uma jogada). 
Sendo a ação de finalização da jogada a forma mais comum de marcar gols, as equipes têm (ou deveriam ter) como base de sua idéia de jogo construir muitas situações de finalização, de um determinado tipo (qual seria?), de maneira que seus jogadores tivessem muitas oportunidades vantajosas de concretizá-las em gol(s). 

Figura 2 – Relação entre Passes (Certos) e Finalizações

A relação dos passes certos com o total de finalizações apresenta médias consideravelmente próximas entre as quatro seleções. Na relação com as finalizações certas, as seleções europeias apresentam médias muito mais altas do que as seleções sul-americanas. Na comparação em questão pode-se atribuir essa diferença ao tipo de jogo, à preferência por determinado padrão de sequência ofensiva e também pela competência de seus definidores.
Há uma grande diferença entre finalizar e finalizar no gol (considerada a finalização certa). Geralmente a finalização no gol é produto de uma sequência ofensiva (produção coletiva) que proporciona uma última ação de definição em circunstâncias vantajosas (pressão de tempo e espaço ideal, posição corporal do definidor, etc.) e/ou mérito individual de um jogador (produção individual) que crie esse cenário favorável. Ambas produções, coletiva e individual, acontecem complexamente em paralelo, com predominância de uma ou outra dependendo da circunstância.

 
Figura 3 – Relação entre Finalizações (Total e Certas) e Gols

Na figura 3, está descrita a produtividade ofensiva das equipes. Ao relacionar o total de finalizações com as finalizações certas, observa-se a capacidade das seleções em transformar uma finalização em uma finalização no gol, com as exigências já descritas acima. O Brasil foi mais eficiente nesse quesito enquanto a Espanha foi a menos eficiente, mesmo sendo a seleção que mais finalizou nessa competição.

Figura 4 – Relação entre Passes (Total e Certos) e Gols

Nas figuras 3 e 4, as relações mostram que a seleção uruguaia é aquela que com um menor número de ações técnicas de passe e finalização faz gols. Com exceção da relação das finalizações certas com os gols em que tem um índice maior que o da Espanha, em todas as outras relações (total de finalizações e passes e passes certos), o Uruguai detém os menores índices relativos. Dessa forma, pode-se supor que a seleção uruguaia ou é mais econômica em suas sequências ofensivas ou por opção, ou como consequência das alternativas individuais / coletivas que estão disponíveis. Porém, ter relações mais baixas em grande parte das variáveis apresentadas não foi suficiente para impedir que o Uruguai tivesse a pior classificação entre as quatro seleções semifinalistas. Essa seleção não cumpriu com o objetivo do jogo (fazer mais gols que o adversário) em seus jogos, porque segundo a lógica do jogo a equipe deve buscar “fazer com que a bola entre na meta adversária, com o menor número de ações possível” (Leitão, 2009, p. 54), portanto ela atendeu apenas à segunda parte do conceito. Os dados são relativos a duas partidas por seleção, para que sejam observados padrões. A efetividade que potencializa vitórias está ligada à capacidade de ser circunstancial no cumprimento da lógica, ser efetivo / econômico a cada ação, a cada partida. Afinal, em sistemas complexos, não lineares, caóticos, pode apenas potencializar resultados, jamais garanti-los.

Referências Bibliográficas

Anderson, C. e Sally, D. Os números do jogo: por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado. Tradução: André Fontenelle. São Paulo, 2013.
FIFA. Disponível em: http://pt.fifa.com/confederationscup/statistics/index.htm. Acesso em: 05/07/2013.

Leitão, R.A.A. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. Tese de Doutorado em Educação Física. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 2009. Campinas. 2009.