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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

As Dominantes do Jogo de Futebol e a Complexidade

Com o aparecimento de novas metodologias de treinamento em futebol, com destaque àquelas essencialmente apoiadas nas teorias da complexidade, novas discussões têm surgido acerca dos temas “treinamento” e “periodização” dentro do futebol e um renovado conceito de processo vem emergindo em resposta a tais dilemas. Para os profissionais habituados a trabalhar com as metodologias tradicionais, os conteúdos do treinamento estão bem definidos e são desenvolvidos cada um a seu momento de uma maneira fragmentada (e a palavra “fragmentada” aparece aqui não como crítica, mas como constatação), com uma ocupação das sessões de treino da semana dando ênfase na dominante física. Para estes, uma metodologia que defenda a integração das dominantes física, tática, técnica e mental / emocional, manifestando – se simultaneamente nas atividades propostas, aplicando os conceitos de volume, intensidade e densidade com outros objetivos e com o controle do treino sendo feito através de outras variáveis que não as corriqueiras ainda parece uma idéia nebulosa e pouco prática.

A metodologia mais evidenciada nessa nova tendência é a Periodização Tática (PT), que propõe toda a estruturação dos treinamentos, desde a pré-temporada, balizada pelo Modelo de Jogo que se pretende construir e que deve evoluir continuamente atingindo seu ápice no final da temporada. A PT não prevê queda de rendimento para uma retomada posterior, o nível de elaboração do Modelo de Jogo deve chegar a níveis superiores seqüencialmente. Para que esse fenômeno ocorra, deve-se selecionar os conteúdos, estabelecer a forma como eles serão desenvolvidos e estabelecer um processo com base pedagógica que será concretizado através de uma didática coerente.

Cada uma das dominantes anteriormente citadas possui seu próprio conteúdo, porém, há uma diferença na forma de desenvolvimento das mesmas, visto que, elas devem estar presentes no treino de maneira similar àquela em que se manifestam no jogo como podemos observar na figura 1.

Figura 1 – Paradigmas de manifestação das dominantes no Jogo

Ao aplicar um paradigma cartesiano para a análise do jogo, possivelmente será dele retirado um modelo parecido com o Interdisciplinar (não é o objetivo aqui entrar nesta discussão, mas deve-se ressaltar que no futebol profissional no Brasil atualmente algumas equipes ainda não atingiram este estágio, trabalhando num modelo Multidisciplinar, sem a mínima interação entre as áreas) e conseqüentemente o treinamento desintegrará as partes do jogo, para potencializá-las separadamente e num momento posterior integrá-las na tentativa de transformar os ganhos isolados em aumento no rendimento do jogo. Para um modelo pautado nas teorias da complexidade, o jogo não deverá de desintegrado, mas “fractalizado”, ou seja, desenvolvido através de atividades que representem fractais (partes do todo que contém todas as características do todo, mantém a identidade do todo) do jogo formal, com modificações no tempo, no espaço, no número de jogadores, na regra, entre outras variáveis, mas que sempre mantenham relação com a unidade funcional do jogo. E para manter íntima relação com o jogo, as atividades devem ter conteúdos táticos, físicos, técnicos e mentais, porque, dentro do processo de evolução do “jogar” da equipe são estes (os conteúdos) que permitirão que a modelação pretendida pelos membros da comissão técnica se concretize e se transforme em resultados consistentes.

Para finalizar, há duas informações muito importantes para os profissionais interessados nessas novas metodologias que devem ser assimiladas para que não ocorram “enganos”. A primeira é esclarecer que mini-jogos e / ou jogos reduzidos não são as atividades citadas responsáveis por construir o Modelo de Jogo. As atividades referidas são jogos condicionados que possuem uma relação entre eles durante todo o processo e que são únicos para cada treinador que trabalhe nessa perspectiva. A segunda informação é que não dá para desenvolver uma parte do trabalho pautada na complexidade e outra não, é uma questão de filosofia, ou a comissão técnica tem conhecimentos sólidos para desenvolvê-la ou trabalha dentro daquilo que conhece mais profundamente.


Leandro Zago

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Livro: Por que tantas vitórias ?



"A transição defesa-ataque tem de ter uma relação íntima com aquilo que é a nossa forma ofensiva de jogar. Quando uma equipa pressiona tão alto, precisa de descansar durante o jogo. E o que é melhor? Descansar com bola ou sem bola? Quero que a minha equipa saiba descansar com bola e saber descansar com bola é ter um bom jogo posicional, é os jogadores ocuparem racionalmente o espaço de jogo e terem capacidade para terem a bola em seu poder mesmo que durante algum tempo o objectivo não seja dar profundidade ao jogo e chegar rapidamente à baliza adversária (José Mourinho)."

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Artigo: Prof. Dr. Júlio Garganta

"A verdadeira dimensão da técnica repousa na sua utilidade para servir a inteligência e a capacidade de decisão táctica dos jogadores e das equipas. Um bom executante é, antes de mais, aquele que é capaz de seleccionar as técnicas mais adequadas para responder às sucessivas configurações do jogo. Por isso, o ensino e o treino da técnica no Futebol, não devem restringir-se aos aspectos biomecânicos, mas atender sobretudo às imposições da sua adaptação inteligente às situações de jogo. Nesta perspectiva, afigura-se mais importante saber gerir regras de funcionamento, ou princípios de acção, do que utilizar técnicas esteriotipadas ou esquemas tácticos rígidos e pré-determinados (Garganta, 2001)."


Clique na imagem acima para acessar o Artigo completo


"Actualmente, os especialistas defendem a utilização duma pedagogia de situaçõesproblema, a qual representa um prolongamento lógico dos modelos de acção motora inspirados nas ciências cognitivas e nos modelos sistémicos. Assim, pode dizer-se que se assiste a uma transição dos modelos analíticos para modelos sistémicos, no qual os pressupostos cognitivos do praticante e a equipa são elementos fundamentais (Júlio Garganta)."

domingo, 6 de setembro de 2009

Seleção Brasileira: a evolução do Modelo de Jogo

São incontestáveis os resultados obtidos pela Seleção Brasileira no ano de 2009, principalmente nas competições oficiais em que conquistou o título da Copa das Confederações e a classificação antecipada para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul com uma vitória em Rosário contra a Argentina. Após um ano de 2008 em que o Brasil não marcou um gol sequer jogando em casa pelas Eliminatórias da Copa, a equipe vem apresentando uma evolução considerável e desde a goleada por 6 a 2 contra Portugal (jogo amistoso ainda em 2008) e tem ganho jogos de adversários tradicionais por placares destacados como por exemplo a vitória contra o Uruguai pela Eliminatórias em Montevidéu por 4 a 0 e o 3 a 0 contra a Itália na Copa das Confederações.
Do ponto de vista da dominante tática, pode-se perceber que Dunga abriu mão da rigidez de realizar a recuperação da bola através de uma única plataforma tática e prepara a equipe para organizar-se espacialmente de acordo com a linha da bola aumentando a flexibilidade posicional e a capacidade de adequação às situações problema do jogo. Com essas alterações, em muitas ocasiões do jogo um problema do Brasil (recuperar a bola) tem se tornado um problema para o adversário (não perder a bola) o que muda essencialmente o jogo e a tomada de decisão do mesmo (o adversário).

Figura 1 – As variantes da Plataforma Tática Matriz (clique para ampliar)

Num momento inicial e pelas características dos jogadores, a plataforma tática que se configura é a 1-4-3-1-2 (figura 1 – A) que funciona como uma matriz para o aparecimento de novas configurações para as situações do jogo que vão se delineando. E como a partir das situações do jogo, novas plataformas vão se apresentando com regularidade, constata-se que realmente vão além de adequações posicionais da matriz para emergirem como alternativas para resolver as necessidades da equipe principalmente quando está sem a bola.

Quando o adversário inicia a circulação da bola no campo defensivo, o Brasil adianta a primeira linha de marcação até a intermediária ofensiva (figura 1 – B). Robinho e Elano adiantam-se nas faixas laterais e Luís Fabiano na faixa central com o Kaká também centralizado, porém um pouco mais atrás, formando um grande losango. Duas tarefas parecem balizar esse quarteto: manter a bola em circulação pela linha defensiva pelo maior tempo possível (aumentando as chances de um erro ser cometido e fazendo com que os mesmos tomem decisões precipitadas) e, se o adversário quiser aprofundar o jogo, direcioná-lo para o centro do losango onde sofrerá pressão imediata.

Caso a bola entre nesse espaço e não seja imediatamente recuperada, Elano e Robinho recuam até a linha do Kaká dando origem a plataforma 1-4-2-3-1 (figura 1 – C). Com essa formação, a referência é direcionar o adversário para as laterais, onde ele será pressionado.

Figura 2 – O Brasil no campo de defesa e o Balanço Defensivo (clique para ampliar)

Mesmo quando o adversário progride rapidamente, o Brasil consegue defender-se com pelo menos oito jogadores (goleiro + sete) atrás da linha da bola. Caso o ataque rápido ou contra-ataque do adversário seja desacelerado e ele comece a circular a bola na busca de espaços para finalizar (ataque posicional), o Robinho recua um pouco mais e mantem o equilíbrio horizontal da equipe assegurado (figura 2 – D) apontando para uma outra plataforma, o 1-4-4-1-1, com nove (goleiro + oito) jogadores atrás da linha da bola.

A organização defensiva brasileira enfrenta os seus maiores problemas quando tem que se defender muito próxima a seu gol. E isso não acontece simplesmente pela proximidade que o adversário está da sua meta, mas também porque nesta zona do campo a equipe (Seleção Brasileira) ainda demonstra uma considerável confusão em relação às referências para a marcação. Alguns jogadores mantem as estruturas com referências no espaço, outros acompanham o adversário direto, com pouca coordenação entre esses movimentos. Esse fato leva o Brasil a desorganizar-se e a recuperar a bola (com certa dificuldade e em zonas que não favorecem a manutenção ou a progressão) muito próxima do gol que defende tendo interferência direta na transição ofensiva que fica prejudicada. Nestes momentos do jogo, a Seleção fica em sua maioria na intermediária defensiva, sofrendo alguns ataque consecutivos (figura 2 – E).

O Brasil tem obtido muito êxito em ataques rápidos e contra-ataques, porém quando o adversário consegue construir situações que o induzem a circular com uma certa freqüência (ataque posicional) alguns problemas são apresentados. O principal deles é no balanço defensivo, que pode ser observado quando a Seleção enfrenta equipes que tem como princípio recuperar a bola e sair rápido para o campo de ataque. Os locais onde o risco é mais evidente nas últimas partidas são as faixas laterais (figura 2 – F), porque jogando contra equipes compactas, o Brasil busca penetrações por essa região na tentativa de dar melhor amplitude ao ataque.

Com três anos de trabalho sob o comando do técnico Dunga, fica evidente a evolução que a Seleção Brasileira teve desde que ele assumiu. Com menos de um ano para a Copa do Mundo, alguns detalhes ainda podem (e devem) ser acertados. Independente disso, o treinador chegará à Copa merecendo a credibilidade (que ele conquistou com bons resultados) de todos.


Leandro Zago

sábado, 30 de maio de 2009

Compreensão do Jogo: da formação ao profissionalismo

Segue abaixo o questionamento (em itálico) e a resposta dada ao editor do site "Universidade do Futebol", Bruno Camarão, sobre o comentário recente do treinador Mano Menezes dado ao programa Arena Sportv.

No programa Arena Sportv, o Mano Menezes, treinador do Corinthians, após questionado sobre a atuação de meio-campistas, estilos, etc, falou sobre o Boquita, jovem de 18 anos, que participou da campanha vitoriosa na Copa São Paulo desse ano e subiu para o elenco profissional. E comparou com outra revelação: Lulinha.

"O Boquita encontrava muitas dificuldades de definição de jogada, pois cadenciava muito, tinha uma leitura privilegiada, mas a dinâmica da partida nessa categoria era mais corrida. Quando ele chegou no profissional, diante de uma maior cadência, adaptou-se rapidamente. Com o Lulinha pode ter ocorrido o inverso, sem dúvidas".

Sobre isso, gostaria de contar com a sua opinião de campo. É comum jogadores apresentarem mais dificuldades na base, por conta do seu estilo, e se adequarem rapidamente quando são encaixados no time de cima? O processo de maturação dos atletas nesse período, entre os 16 e 18 anos é mais ou menos parecido? Que tipo de trabalho poderia ser realizado com esse tipo de atleta para "acelerá-lo" ou "desacelerá-lo"?

"Primeiro temos que tentar entender o que o treinador Mano Menezes entende por "cadenciar" o jogo. Ao dizer que na categoria sub-20 a dinâmica do jogo é mais "corrida" provavelmente ele está se referindo (quando cita esses dois termos) ao correr menos ou mais sob o ponto de vista da dominante física de forma dissociada às outras variáveis.
Em tese, o jogo das equipes profissionais deve ser o mais elaborado (pensando na evolução do jogo anárquico ao elaborado segundo Júlio Garganta) e, portanto exige uma compreensão num nível superior àquele exigido pelas categorias de base. Digo em tese porque podemos ter equipes sub-20 ou sub-17, por exemplo, que construam um jogar baseado em uma maior e melhor utilização de referências, proporcionando a essa equipes um jogo melhor qualificado.
Atualmente, no Brasil, o desenvolvimento dessa compreensão do jogo fica dependente da capacidade individual dos atletas em problematizar as situações por ele vivenciadas e transformar em aprendizado efetivo. Não se considera um conteúdo fundamental em nossas categorias de base (salvo raríssimas exceções - para não falarmos todas - inclusive aquelas reconhecidas por apresentarem uma excelente infra-estrutura) desenvolver a compreensão individual e coletiva dos atletas no intuito de promover um jogar superior. Perceba como nossos atletas vem sendo contratados mais novos (em idade) e terminando seu período de formação em alguns grandes clubes europeus. Poucos têm saído do Brasil e jogado regularmente nas equipes de "top" européias sem uma prévia adaptação. Essa leitura privilegiada, a qual se referiu o treinador em relação ao Boquita, é treinável, mas para isso existe um processo de alguns anos que deve iniciar no momento que o garoto entra no clube (sub-11 ou sub-13) e que respeite sua zona de desenvolvimento proximal e não deve terminar assim que ele chega ao profissional, pois a aprendizagem contínua e a vitória andam lado a lado. Precisamos rever alguns conceitos."


Veja o artigo completo aqui


Leandro Zago