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Sábado, 30 de Maio de 2009

Compreensão do Jogo: da formação ao profissionalismo

Segue abaixo o questionamento (em itálico) e a resposta dada ao editor do site "Universidade do Futebol", Bruno Camarão, sobre o comentário recente do treinador Mano Menezes dado ao programa Arena Sportv.

No programa Arena Sportv, o Mano Menezes, treinador do Corinthians, após questionado sobre a atuação de meio-campistas, estilos, etc, falou sobre o Boquita, jovem de 18 anos, que participou da campanha vitoriosa na Copa São Paulo desse ano e subiu para o elenco profissional. E comparou com outra revelação: Lulinha.

"O Boquita encontrava muitas dificuldades de definição de jogada, pois cadenciava muito, tinha uma leitura privilegiada, mas a dinâmica da partida nessa categoria era mais corrida. Quando ele chegou no profissional, diante de uma maior cadência, adaptou-se rapidamente. Com o Lulinha pode ter ocorrido o inverso, sem dúvidas".

Sobre isso, gostaria de contar com a sua opinião de campo. É comum jogadores apresentarem mais dificuldades na base, por conta do seu estilo, e se adequarem rapidamente quando são encaixados no time de cima? O processo de maturação dos atletas nesse período, entre os 16 e 18 anos é mais ou menos parecido? Que tipo de trabalho poderia ser realizado com esse tipo de atleta para "acelerá-lo" ou "desacelerá-lo"?

"Primeiro temos que tentar entender o que o treinador Mano Menezes entende por "cadenciar" o jogo. Ao dizer que na categoria sub-20 a dinâmica do jogo é mais "corrida" provavelmente ele está se referindo (quando cita esses dois termos) ao correr menos ou mais sob o ponto de vista da dominante física de forma dissociada às outras variáveis.
Em tese, o jogo das equipes profissionais deve ser o mais elaborado (pensando na evolução do jogo anárquico ao elaborado segundo Júlio Garganta) e, portanto exige uma compreensão num nível superior àquele exigido pelas categorias de base. Digo em tese porque podemos ter equipes sub-20 ou sub-17, por exemplo, que construam um jogar baseado em uma maior e melhor utilização de referências, proporcionando a essa equipes um jogo melhor qualificado.
Atualmente, no Brasil, o desenvolvimento dessa compreensão do jogo fica dependente da capacidade individual dos atletas em problematizar as situações por ele vivenciadas e transformar em aprendizado efetivo. Não se considera um conteúdo fundamental em nossas categorias de base (salvo raríssimas exceções - para não falarmos todas - inclusive aquelas reconhecidas por apresentarem uma excelente infra-estrutura) desenvolver a compreensão individual e coletiva dos atletas no intuito de promover um jogar superior. Perceba como nossos atletas vem sendo contratados mais novos (em idade) e terminando seu período de formação em alguns grandes clubes europeus. Poucos têm saído do Brasil e jogado regularmente nas equipes de "top" européias sem uma prévia adaptação. Essa leitura privilegiada, a qual se referiu o treinador em relação ao Boquita, é treinável, mas para isso existe um processo de alguns anos que deve iniciar no momento que o garoto entra no clube (sub-11 ou sub-13) e que respeite sua zona de desenvolvimento proximal e não deve terminar assim que ele chega ao profissional, pois a aprendizagem contínua e a vitória andam lado a lado. Precisamos rever alguns conceitos."


Veja o artigo completo aqui


Leandro Zago

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Referências para a ocupação do espaço sem bola

Considerada por Júlio Garganta (1997) uma competência essencial e inerente aos Jogos Desportivos Coletivos (JDC), a estruturação do espaço de jogo emerge como uma componente fundamental no processo de construção de uma equipe desde o nível individual, manifestada na compreensão e ocupação de espaços mais interessantes por parte do atleta a cada situação problema que o jogo apresenta e na gestão coletiva do espaço de jogo, onde a equipe estrutura-se em campo com o intuito de obter vantagem espacial e numérica pelo maior tempo possível nas mais variadas zonas do campo.

A ocupação do espaço não acontece de forma aleatória, ela tem (ou pelo menos deve ter) um significado para o jogador e para a equipe que se auto-organiza o tempo todo em função dos objetivos do jogo. A Lógica do Jogo de Futebol (Leitão, 2004) é comum a todos os jogos e imutável, os caminhos para cumpri-la é que podem exigir meios diferentes e, o que apresenta uma enorme variação, é a forma como cada equipe se organiza em nível estratégico para vencer partidas e quais as referências que dão sustentação a essa organização estratégica. Portanto, a criação de referências que norteará as decisões dos jogadores para que reajam em função de algo que seja comum a todos, possibilitando o jogo em equipe de forma concreta.

Figura 1 – Plataforma Tática 1-4-4-2 Zonal (vermelha)

Na figura acima pode-se observar que a equipe que está sem bola (vermelha) respeita algumas referências para a ocupação do espaço quando sem bola. Algumas delas são:

- a posição da bola: independente da posição ocupada pela equipe azul quando em posse da bola, a equipe vermelha irá se comportar em função de seus próprios jogadores;

- lado fraco: a faixa contrária à bola fica desocupada momentaneamente para que mais jogadores ocupem uma área entre a bola e o gol (flutuação e compactação como princípios estruturais sendo realizadas nesse caso);

- quadrantes: a ocupação dos quadrantes se dá de forma equilibrada, porém prioritária (espaços de maior valor) permitindo criar superioridade numérica se necessário;

- linhas de marcação: a orientação para a estruturação da marcação por zona é a formação de linhas que permitem maior equilíbrio horizontal.

É importante frisar que as referências para a estruturação do espaço sem bola devem estar relacionadas com as referências para a estruturação do espaço com bola e com todas as outras referências (operacionais, por exemplo) de forma que interajam potencializando o efeito uma da outra e nunca atuando de maneira concorrente. Outro detalhe que vale a pena ressaltar é que essas referências citadas acima estão baseadas numa marcação por zona e, caso seja feita a opção por uma marcação individual ou mista deve-se buscar outras referências. Marcar em função da posição da bola (zona) para alguns treinadores é considerado desvantajoso pela grande velocidade que a mesma pode atingir, porém, ao optar pela marcação individual aumenta-se o número de referências (onze), sendo que essas (os jogadores) buscam a desestruturação da equipe que os marca.

Independente das escolhas do treinador por esta ou aquela forma de jogar, só com referências bem definidas que o caráter coletivo da equipe será manifestado.

Referências Bibliográficas

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Leitão, R. A. A. (2004) Futebol: análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. UNICAMP, Campinas.


Leandro Zago

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Pressionando em zona de forma equilibrada

“A pressão deve exercer-se sobre a bola, não sobre o jogador”

(Cruyff, 2002)


Recuperar a bola. Essa é uma tarefa que pode se tornar mais ou menos complicada dependendo do nível de elaboração que se encontra a equipe sem bola em seus princípios de jogo, em nível organizacional, operacional e estrutural. E também está ligada, é claro, ao jogo posicional do adversário, sua capacidade de circular a bola e de progredir em direção ao campo adversário ou ao gol, além de outras inúmeras variáveis. Contudo, ter a bola e, obviamente estar preparado para utilizá-la de forma efetiva em busca do cumprimento da lógica do jogo (Leitão, 2004), passou a ser essencial principalmente para equipes de Rendimento Superior que, além de necessitarem de um controle muito bom do jogo sem a bola, também precisam controlá-lo e/ou dominá-lo com bola devido às exigências que são submetidas nas várias competições que disputam, tanto em nível nacional como continental.

Em situações de jogo em que a bola tem que ser recuperada rapidamente após um ataque para que uma situação adversa no placar seja revertida ou contra uma equipe que circule a bola próxima a sua área de defesa como estratégia para a manutenção de uma vantagem por exemplo, faz–se necessário adotar alguns comportamentos. Nesses casos citados, por se tratar de recuperar a bola longe do gol que se defende é preciso adiantar a equipe. O campo a defender torna-se maior e a complexidade do movimento coletivo aumenta. A gestão dos espaços deve estar regida por regras de ação que todos compreendam e entendam seus momentos de aplicação e essa coordenação coletiva que proporcionará a manutenção de um equilíbrio nos níveis estruturais, operacionais e organizacionais.

Figura 1 – Pressão Zonal em Bloco Alto (largura)

Na figura acima podemos observar uma equipe jogando na plataforma 1-4-1-2-3, indo em busca da bola na linha 1 e utilizando marcação por zona. Ao adiantar o bloco em busca da bola, foram construídas 4 linhas de marcação (inclui-se aí o goleiro como uma linha) e com isso um espaço considerável foi deixado nas costas da penúltima linha (zagueiros 3 e 4 e o lateral 6) para que possa ser explorado pelo adversário numa possível bola longa para a entrada em velocidade dos atacantes. Obviamente, sustentar uma contínua pressão sobre a bola e evitar o recuo da equipe (o que geraria maior deslocamento) torna-se essencial, por isso os movimentos tem que estar coordenados. Porém, a equipe azul manteve-se equilibrada do ponto de vista da ocupação do espaço no que tange à largura, conseguindo realizar pressing continuamente caso a adversário busque a circulação lateral da bola. Viradas de jogo longas também não desestruturarão tão facilmente esse bloco.

Figura 2 – Pressão Zonal em Bloco Alto (profundidade)

Utilizando a mesma plataforma da figura anterior, o 1-4-1-2-3, na figura 2 a pressão sobre o adversário deu-se de forma diferente sob o aspecto estrutural. Nessa figura vemos um maior número de linhas construídas e uma equipe mais “estreita”. Mudam-se as prioridades, o objetivo é o mesmo, então qual o motivo? Caso o confronto seja contra uma equipe que lance bolas longas nas costas dos zagueiros, mas que não circule bem a bola, utilizando ataques rápidos sem mudança de flanco, pressionar dessa forma torna-se mais vantajoso.

Para pressionar alto tem que haver estruturas construídas no campo de jogo (podemos observar que os jogadores da equipe que pressiona formam, nas duas figuras, estruturas geométricas entre todos eles, principalmente triângulos e losangos), pois a estruturação do espaço e a relação que os jogadores mantém entre eles (comunicação e meta-comunicação) são duas das três competências essenciais que o autor Júlio Garganta (1997) considera importante para o jogador de esportes coletivos, sendo nesse caso, o futebol. Para cumprir com efetividade a recuperação da bola utilizam-se os princípios de defesa mais adequados (compactação, flutuação, etc.) em conjunto com os operacionais sem perder o todo, o jogo, com transições e fase de ataque, de vista.

Referências Bibliográficas

Cruyff, J. (2002) Me gusta El fútbol. RBA Libros. Barcelona.

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Leitão, R. A. A. (2004) Futebol: análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, Campinas.


Leandro Zago - CIEFuT

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

A Essência Tática (e / ou Complexa?) do Jogo de Futebol

“É sabido que a água (H2O) é um meio essencial para

apagar o fogo, no entanto, se separarmos as suas

componentes, hidrogênio e oxigênio, qualquer uma destas

ao invés de apagar o fogo, incandesce-o ainda mais.”

(Karl Popper)

Muito se tem discutido no meio do futebol sobre metodologias de treino, principalmente no meio acadêmico (é sabido o distanciamento que este tem dos profissionais que vão a campo com suas equipes diariamente por motivos que não cabem aqui neste texto), na busca de aprimoramento dos métodos e neste momento transcendendo-se um pouco (até agora um pouco, mas com possibilidade de se tornar algo grandioso) e vislumbrando uma possível ruptura paradigmática. Novas propostas de estruturação do treinamento de futebol como a Periodização Tática construída pelo professor Vitor Frade da Universidade do Porto e apresentada para seus alunos há cerca de trinta anos vem contribuindo muito para essa contestação ao treinamento analítico, fragmentado e fez emergir um novo paradigma, o da Complexidade. Essa Teoria (a da Complexidade) tendo como um de seus expoentes o francês Edgar Morin propõe a integração, a interação, a relação entre ordem e desordem para uma reconstrução do conhecimento e para uma (re)organização num nível superior ao anterior.

Devido ao sucesso de José Mourinho (primeiro e até o momento o único treinador de Top adepto assumido da Periodização Tática) muitos aderiram ao método, porém sem o mesmo sucesso. Por colocarem a dominante tática como norteadora do processo, muitos incorreram no mesmo equívoco do paradigma cartesiano, fragmentaram o treino de outra forma negando as outras dominantes (técnica, física e mental) em maior ou menor grau para cada uma delas. Para Júlio Garganta (1997) “a dimensão tática ocupa o núcleo da estrutura de rendimento no futebol, pelo que a função principal dos demais fatores, sejam eles de natureza técnica, física ou psíquica, é a de cooperar no sentido de facultarem o acesso a desempenhos táticos de nível cada vez mais elevado”. Nesta frase do autor fica clara a interdependência entre as dominantes, atentando para o fato de que no processo de treinamento a equipe tenha como objetivo central atingir picos de "Performance de Jogo" e não simplesmente picos relacionados à dominante tática. Colocar a dominante tática como balizadora do processo ao invés da dominante física é um avanço no sentido de proporcionar um caráter mais específico, mas não se configura em mudança de paradigma (do cartesiano à complexidade) se não forem criados exercícios que correspondam a fractais do jogo para que todas as dominantes presentes no jogo se manifestem em simultâneo, de forma integrada e interada. Claro que esses exercícios estarão dentro de um projeto maior, pedagógico, com construção, desconstrução e reconstrução de comportamentos, evoluindo num espiral contínuo que tem o jogar que se pretende como modelo. Mini-jogos e jogos-reduzidos não são Periodização Tática, pois são propostos de forma aleatória e sem manter relação entre os conteúdos anteriores e posteriores ao longo de um espaço temporal e também por, na maioria das vezes, não estarem relacionados com a forma de jogar da equipe.

Faz-se necessário aos profissionais que trabalhem sob essa nova perspectiva considerarem todas as variáveis, aprofundarem-se no conceito de complexidade para que suas equipes não paguem com derrotas seus erros metodológicos. Cabe lembrar que o método tradicional está em um estágio multidisciplinar (talvez poucos no estágio interdisciplinar) e bem ou mal, se de forma adequada ou não acaba-se treinando técnica e tática (com o treinador), capacidades físicas (com o preparador físico) e psicológicas (com o profissional dessa área que está presente em muitos dos clubes atualmente), portanto o mérito estará em um trabalho transdisciplinar que não negue nenhuma das dominantes, e essa negação tem ocorrido com a dominante física pela “necessidade” de se mostrar que o trabalho sob esses conceitos é diferente. Será que o grande diferencial em relação ao trabalho de campo de José Mourinho não seja fazer com que suas equipes apresentem uma alta "Intensidade de Jogo" ao invés de uma alta "Intensidade Tática", como ele próprio denomina? Cuidados são necessários para que conceitos não sejam confundidos e atrasem novos modelos de se trabalhar com o futebol de Formação, de Alto Rendimento e de Rendimento Superior.

Referências Bibliográficas

Garganta, J. (1997) Modelação táctica do jogo de Futebol. Tese de Doutorado. Universidade do Porto.

Leandro Zago - CIEFuT


Sábado, 22 de Novembro de 2008

O respeito à Lógica do Jogo e a Hierarquização de Princípios

Ao iniciar a construção de um Modelo de Jogo (MJ), o treinador de futebol deve ter claro quais são todos os elementos que farão parte do mesmo. Quase que simultaneamente, ele deve ordenar esses elementos em ordem de importância, ou seja, criar uma estrutura hierárquica. Porque tão importante quanto a quantidade de variáveis e, conseqüentemente de possibilidades que um MJ contém, é a forma organizada (podemos dizer também ordenada) com que essas variáveis se manifestam. Para exemplificar, podemos imaginar uma equipe que entende o movimento coletivo necessário para realizar pressão na linha 5 (pressão em bloco alto), porém seus atletas não tem muito bem definidos quais os referenciais que ativarão essa busca pela bola (se um passe para trás ou a bola em determinada zona do campo) fazendo com que a equipe fique em estado de “confusão organizacional”, com os atletas tomando decisões que não respeitem à mesma orientação, aumentando a possibilidade do adversário livrar-se dessa situação pelos espaços gerados.

O neurocientista Antônio Damásio, em seu livro “O Erro de Descartes” (1994) propõe alguns conceitos interessantes para essa discussão. Concebendo a razão como sendo baseada na seleção automatizada, ele nos dá a seguinte solução:

1) se a ordem tiver de ser criada entre as possibilidades disponíveis, nesse caso elas terão que ser ordenadas;

2) se tiverem que ser ordenadas, então são necessários critérios;

3) os critérios são fornecidos pelos marcadores-somáticos, que exprimem, a qualquer momento, as preferências cumulativas que recebemos adquirimos.

Portanto, tendo várias possibilidades elas tem que ser ordenadas, para isso são necessários critérios que são fornecidos pelos marcadores-somáticos, entendido? Até certo ponto sim, mas o que me define os critérios que servirão de base para essa ordenação? O primeiro e essencial critério é colocar a LÓGICA DO JOGO como epicentro do processo de treino. Em nenhum momento pode-se subestimar a lógica do jogo como balizadora da construção do MJ. Como podemos acompanhar na figura abaixo, temos os Princípios Estruturais e os Princípios Operacionais se correlacionando, porém sempre num nível subjacente à lógica do jogo devido as importantes funções que eles têm como ferramentas para cumpri-la da maneira mais eficaz possível.




Figura 1 – Nível primário de Hierarquia para construção do Modelo de Jogo

Para Amieiro (2005), ao se referir à organização defensiva, pensa que o todo, as relações a privilegiar entre as partes que o constituem (os jogadores), e as tarefas a realizar por cada uma delas isoladamente, serão diversos em sua manifestação, de acordo com as referências que se consideram e a respectiva hierarquização (estabelecimento de prioridades). Nesse trecho do referido autor, vemos claramente uma referência à necessidade de ordenação de princípios na estruturação do processo defensivo e como só assim é possível que um grupo de jogadores atue como uma equipe, com interdependência e inter-relação no jogar. Também pode-se interpretar que o autor está referindo-se à hierarquia no nível apenas dos Princípios Estruturais e Operacionais e a relação entre os dois, não considerando a relação de ambos com a o cumprimento da lógica do jogo.

Para estruturar a hierarquia é necessário estabelecer critérios, prioridades, que serão definidos a partir do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo, o que ele considera fundamental sua equipe realizar para vencer partidas. Jamais será garantia de vitória ter melhor amplitude ou bascular de forma mais equilibrada que o adversário, porque os princípios só ganham significado quando estão a serviço do cumprimento eficaz da LÓGICA DO JOGO. Nela se encontram as explicações para as vitórias e as derrotas e o profissional do futebol que compreendê-la integralmente, provavelmente não mais perderá partidas (até que um segundo profissional realize o mesmo).

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

Damásio, A. (1994) O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras. 1996.


Leandro Zago - CIEFuT

Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

O jogo dos sete ... erros ou anões ? O que o time(?) de Dunga tem a ensinar

Pela terceira rodada consecutiva jogando em casa, a Seleção Brasileira de futebol empatou em zero a zero e, excluindo-se o jogo contra a Argentina pode-se considerar que o Brasil deixou de somar quatro pontos nas partidas contra Bolívia e Colômbia que o colocariam muito próximo ao Paraguai, líder das Eliminatórias Sul-americanas. Tão preocupante quanto os pontos perdidos é a maneira anárquica com que a Seleção se apresenta nos jogos, com um modelo de jogo pouco elaborado e mesmo assim confuso na aplicação de princípios individuais e coletivos às situações que o adversário proporciona. Nos sete tópicos a seguir, estão algumas observações sobre os conceitos que o Brasil demonstra no seu jogo, nas falas dos atletas e nas tomadas de decisão do seu treinador.

1. Princípios Operacionais de Defesa (POD)

A Colômbia jogou na plataforma 1-4-4-2 com “duas linhas de 4” bem definidas e utilizou como POD impedir a progressão do adversário. Ela só mudava o POD quando o Brasil passava da intermediária ofensiva e a equipe colombiana buscava recuperar a bola. O Brasil utilizou como POD impedir a progressão até a linha 3 (meio – campo) e recuperar a bola quando o adversário entrava em seu campo. Nesse tópico começam a surgir os problemas para a Seleção, pois devido sua disposição em campo (veremos a seguir) não conseguia circular a bola quando em posse da mesma, perdendo-a rapidamente e, quando sem bola, optou por um princípio operacional inadequado porque quando a posse era colombiana, seus zagueiros realizavam passes laterais sem a menor pretensão em progredir no campo de jogo. Ao tentar adiantar a marcação, o Brasil desorganizava-se e a Colômbia o atacava com espaços.

2. Estruturação do espaço de jogo

Devido ao POD da Colômbia, em muitos momentos fazia-se necessária a circulação da bola pela equipe brasileira. O trabalho dos jogadores colombianos foi bem facilitado pela péssima estruturação espacial que o Brasil apresentava quando em posse da bola. A disposição pelo gramado dos jogadores brasileiros não dava conta de criar linhas de passe em bom número ao portador da bola (triângulos, losangos e diagonais) e nem aproveitava todo o espaço possível cumprindo alguns princípios estruturais de ataque como amplitude e profundidade, por exemplo.

3. Velocidade de(o) jogo

Sem algo desenhado sob o ponto de vista estrutural e espacial (estruturas fixas e móveis) e enfrentando uma equipe que desacelera o jogo através da sua estratégia adotada fica complicado aumentar a velocidade de passe-domínio-passe para que a circulação fique mais dinâmica. Para completar, Dunga deu declarações justificando a falta de velocidade ao cansaço dos jogadores Kaká e Robinho (que teoricamente seriam os responsáveis por proporcionar essa característica à equipe) como se o padrão coletivo não tivesse interferência nesse quesito.

4. Entrevistas de Kaká e Lúcio no intervalo

Ao final do primeiro tempo os jogadores Lúcio e Kaká deram entrevistas em que usaram palavras diferentes, mas falaram sobre aumentar a velocidade do jogo. Lúcio falou mais especificamente sobre ter que jogar em maior velocidade e Kaká sobre passar a bola de forma mais rápida. Os jogadores parecem compreender o que ocorre na partida, mas as soluções que escolhem não atendem às necessidades.

5. Saída de bola, chutões e segundas bolas

Outra conseqüência do princípio operacional proposto pela Colômbia foi a dificuldade que a Seleção tinha na saída de bola. A linha defensiva brasileira rodava a bola sem progressão, e sem velocidade, não criando espaços e nem sendo ajudada pela movimentação dos jogadores à frente da linha da bola. Como resultado, a tentativa de realizar ligação direta, através de passes longos, altos e verticais. Com a defesa colombiana recebendo esses passes de frente e com a superioridade numérica em seu campo de defesa (8 + 1 X 3 e 8 + 1 X 4 na maioria da vezes) as “segundas bolas” na maioria das vezes eram da equipe visitante.

6. Robinho e a leitura do jogo

Jogando contra uma equipe que coloca rapidamente nove jogadores (oito + goleiro) em seu campo de defesa, parece claro que sempre que for possível deve-se contra – atacar com velocidade, mudar de zonas do campo (tanto em horizontalidade como em verticalidade) para que o ataque termine rapidamente antes da recomposição adversária. Robinho, sempre que teve a oportunidade optou pela condução, mas antes de qualquer crítica individual, deve-se observar que não foram criadas linhas de passe interessantes para que a melhor decisão fosse tomada.

7. Entrada do Mancini e saída do Robinho

Ao colocar o ala Mancini, houve uma tentativa de um 1-4-2-1-3 com Robinho e Mancini abertos e Kaká nas costas do Jô. Em seguida, Robinho de machucou, entrou Alexandre Pato e Jô veio jogar aberto e longe do gol pelo lado esquerdo. Para jogar com três atacantes é necessária uma familiarização com essa plataforma para que suas dinâmicas sejam bem aplicadas, caso contrário há uma inferioridade numérica em zonas importantes do campo.

Sem considerar a falta de coordenação das transições brasileiras e outros detalhes como a mudança constante de plataforma de jogo, não observa-se que a comissão técnica da Seleção tenha claro algumas coisas que foram abordadas nesse artigo. É sempre um processo de aprendizagem assistir aos jogos da Seleção Brasileira, principalmente para aqueles que, com uma visão crítica, estão construindo um saber sobre o jogo. E para esses, aprender coisas novas é algo contínuo que nunca terminará, enquanto para outros o que está estabelecido é uma verdade suficiente para dar-lhes respostas, independente se são sempre as mesmas, afinal no futebol tudo que tinha para ser criado está aí, o resto é invenção. Você acredita nisso?


Leandro Zago